{"id":2165,"date":"2025-03-01T13:39:04","date_gmt":"2025-03-01T16:39:04","guid":{"rendered":"https:\/\/jornaloarauto.com.br\/?p=2165"},"modified":"2025-03-01T13:39:30","modified_gmt":"2025-03-01T16:39:30","slug":"usa-chemicals-vazamento-de-1983-em-porto-feliz-deixa-legado-toxico-e-plano-de-remediacao-ainda-nao-saiu-do-papel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaloarauto.com.br\/index.php\/2025\/03\/01\/usa-chemicals-vazamento-de-1983-em-porto-feliz-deixa-legado-toxico-e-plano-de-remediacao-ainda-nao-saiu-do-papel\/","title":{"rendered":"USA Chemicals: Vazamento de 1983 em Porto Feliz deixa legado t\u00f3xico e plano de remedia\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o saiu do papel"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>H\u00e1 13 anos, a empresa belga Solvay foi contratada pela Cetesb para criar um Plano de Remedia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 31 de mar\u00e7o de 1983, h\u00e1 42 anos, chovia forte em Porto Feliz. Um motorista manobrava seu caminh\u00e3o no p\u00e1tio da empresa USA Chemicals Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio Ltda, na Ch\u00e1cara S\u00e3o Vicente (entrada de Porto Feliz\/Sorocaba), quando colidiu o ve\u00edculo contra o registro de um dos tanques. O incidente causou o vazamento de aproximadamente 400 mil litros de solventes al\u00f3genos, subst\u00e2ncias qu\u00edmicas altamente t\u00f3xicas.<br>Imediatamente, a Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo (Cetesb) e o Servi\u00e7o Aut\u00f4nomo de \u00c1gua e Esgoto (Saae) foram acionados para conter o vazamento qu\u00edmico. Pouco p\u00f4de ser feito. Os solventes espalharam-se e depois penetraram no solo, causando um dos maiores acidentes qu\u00edmicos do pa\u00eds.<br>Nos dias seguintes, a regi\u00e3o foi interditada ap\u00f3s a morte de peixes e animais. \u201cPor onde esse produto passou, morreu tudo: peixes, \u00e1rvores\u2026\u201d, relatou um ex-diretor do Saae ao jornal Tribuna das Mon\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e9poca. O impacto ambiental foi devastador, e os efeitos persistem at\u00e9 hoje.<br>De acordo com um relat\u00f3rio da Cetesb de 2000, os produtos que contaminaram o solo e as \u00e1guas do bairro Palmital podem causar \u201cpreju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade humana\u201d mesmo em baixas concentra\u00e7\u00f5es. Na \u00e9poca, pessoas que tiveram contato com as subst\u00e2ncias apresentaram necrose (apodrecimento) de tecidos e danos ao sistema nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cGosma\u201d<\/strong><br>As subst\u00e2ncias infiltraram-se no solo, criando uma \u201cgosma\u201d que se movimenta pelo subsolo pr\u00f3ximo \u00e0 regi\u00e3o atingida. Essa massa, batizada de \u201cpluma\u201d pelos t\u00e9cnicos, \u00e9 escura, de mau cheiro e continua a se espalhar. Impedida de avan\u00e7ar para camadas mais profundas devido \u00e0 presen\u00e7a de rochas e argila, a contamina\u00e7\u00e3o se deslocou em dire\u00e7\u00e3o norte, atingindo o bairro Bambu e cruzando a rodovia Marechal Rondon.<br>Os produtos qu\u00edmicos, levados pelas \u00e1guas subterr\u00e2neas e impedidos de aprofundar-se no solo por causa das pedras e argila, foram se espalhando na dire\u00e7\u00e3o norte. Do bairro Bambu, a pluma avan\u00e7ou na dire\u00e7\u00e3o da rodovia Marechal Rondon e atravessou-a. Uma das maneiras para acompanhar o avan\u00e7o dos produtos qu\u00edmicos \u00e9 examinar a \u00e1gua dos po\u00e7os daquela parte de Porto Feliz. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m colher amostras do solo ou dos gases exalados pelos produtos. O problema \u00e9 que todas s\u00e3o caras e trabalhosas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1rea interditada<\/strong><br>Desde ent\u00e3o, a \u00e1rea permanece interditada e monitorada, mas nunca houve divulga\u00e7\u00e3o clara sobre seu estado para o maior interessado: a popula\u00e7\u00e3o porto-felicense. Durante d\u00e9cadas, o sil\u00eancio imperou.<br>Em novembro de 2018, ocorreu uma audi\u00eancia p\u00fablica da C\u00e2mara T\u00e9cnica de Prote\u00e7\u00e3o das \u00c1guas (CTPA) do Comit\u00ea da Bacia Hidrogr\u00e1fica dos Rios Sorocaba e M\u00e9dio Tiet\u00ea (CBH-SMT), na C\u00e2mara Municipal de Porto Feliz. A reuni\u00e3o teve como foco principal a discuss\u00e3o sobre a contamina\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua subterr\u00e2nea causada por um acidente ocorrido em 1983 na antiga empresa USA Chemicals. Estiveram presentes na audi\u00eancia representantes da CTPA-CBH-SMT, o prefeito Ant\u00f4nio C\u00e1ssio Habice Prado, alguns poucos vereadores, a promotora de justi\u00e7a \u00e0 \u00e9poca, representantes do Saae, da Cetesb, da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria de Porto Feliz e do Daee (Departamento de \u00c1guas e Energia El\u00e9trica).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contaminantes<\/strong><br>Representantes da Cetesb relataram que t\u00eam realizado monitoramento cont\u00ednuo da \u00e1rea desde o acidente, identificando diversos contaminantes, como tetracloreto de carbono, tricloroeteno e cloreto de vinila. De acordo com a ata da reuni\u00e3o, os representantes da Cetesb informaram que a empresa Solvay estava respons\u00e1vel por conduzir estudos detalhados sobre a contamina\u00e7\u00e3o, incluindo avalia\u00e7\u00e3o de risco \u00e0 sa\u00fade humana e estudo de intrus\u00e3o de vapores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Investiga\u00e7\u00e3o<\/strong><br>A Solvay, empresa belga fundada h\u00e1 160 anos e l\u00edder global na ind\u00fastria qu\u00edmica, iniciou investiga\u00e7\u00f5es ambientais mais conclusivas em 2013. A empresa avaliou a \u00e1rea interna e externa da antiga USA Chemicals, investigando solo, \u00e1guas subterr\u00e2neas e vapores emitidos pelo solo. Esses estudos t\u00eam como objetivo compreender a extens\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o e propor medidas de remedia\u00e7\u00e3o para mitigar os impactos ambientais e \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica.<br>Tivemos acesso ao documento. O relat\u00f3rio apresenta uma tabela com os resultados da amostragem realizada entre maio e junho de 2017, mostrando a presen\u00e7a de contaminantes em v\u00e1rios pontos de monitoramento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Inconclusivo<\/strong><br>A proposta do estudo inclui medidas de controle e restri\u00e7\u00e3o para po\u00e7os de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua subterr\u00e2nea, dependendo da concentra\u00e7\u00e3o de contaminantes encontrados. A empresa europeia identificou a presen\u00e7a de subst\u00e2ncias como clorof\u00f3rmio, diclorometano, tetracloreto de carbono, tricloroetano e bromof\u00f3rmio. \u00c0 \u00e9poca, a Solvay recomendou aos \u00f3rg\u00e3os competentes a necessidade de a\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de monitoramento e remedia\u00e7\u00e3o.<br>Segundo a Solvay, a geologia complexa da regi\u00e3o dificulta a identifica\u00e7\u00e3o precisa do comportamento da contamina\u00e7\u00e3o no subsolo e a posi\u00e7\u00e3o exata da \u201cgosma\u201d.<br>A empresa apresentou os resultados das investiga\u00e7\u00f5es e comprometeu-se a entregar um plano de interven\u00e7\u00e3o para a \u00e1rea contaminada.<br>O documento \u00e9 um relat\u00f3rio t\u00e9cnico e tem como objetivo fornecer subs\u00eddios para a avalia\u00e7\u00e3o do projeto e a tomada de decis\u00f5es relacionadas \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o do solo e das \u00e1guas subterr\u00e2neas na \u00e1rea. Esses documentos, relat\u00f3rios e a\u00e7\u00f5es foram encomendados h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada pela Cetesb, mas nunca foram colocados em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cetesb analisa<\/strong><br>Solicitamos todos os documentos, relat\u00f3rios e a\u00e7\u00f5es realizadas no local, bem como a situa\u00e7\u00e3o atual da \u00e1rea atingida, para a realiza\u00e7\u00e3o de uma reportagem. A Cetesb respondeu que, desde 1983, mant\u00e9m monitoramentos anuais da qualidade das \u00e1guas subterr\u00e2neas no entorno da \u00e1rea onde ocorreu o acidente, coletando amostras em po\u00e7os pertencentes a ch\u00e1caras, com\u00e9rcios e ind\u00fastrias localizadas nas imedia\u00e7\u00f5es da Ch\u00e1cara S\u00e3o Vicente, bem como em corpos d\u2019\u00e1gua e nas esta\u00e7\u00f5es de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para abastecimento p\u00fablico da cidade.<br>De acordo com a Cetesb, n\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio da contamina\u00e7\u00e3o ao longo das d\u00e9cadas, e os po\u00e7os impactados permanecem os mesmos, sem mudan\u00e7as significativas nas concentra\u00e7\u00f5es dos contaminantes. \u201cEm nenhuma oportunidade foi verificada altera\u00e7\u00e3o na qualidade das amostras obtidas nas esta\u00e7\u00f5es de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua do munic\u00edpio\u201d, afirmou o \u00f3rg\u00e3o estadual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estudo solicitado<\/strong><br>A Cetesb confirmou a encomenda de uma investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 empresa europeia Solvay. Questionada sobre o estudo iniciado em 2013, a Cetesb informou que as a\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o foram implementadas. \u201cEm 2013, foram iniciados os trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o ambiental no local, sob responsabilidade da Solvay, tendo sido j\u00e1 executadas as etapas de Avalia\u00e7\u00e3o Preliminar, Investiga\u00e7\u00e3o Confirmat\u00f3ria, Investiga\u00e7\u00e3o Detalhada e Avalia\u00e7\u00e3o de Risco \u00e0 Sa\u00fade Humana. O caso encontra-se atualmente na etapa de elabora\u00e7\u00e3o do Plano de Interven\u00e7\u00e3o\u201d, confirmou a Cetesb em documento.<br>Ao ser questionada sobre a demora para a conclus\u00e3o do estudo e sua implanta\u00e7\u00e3o, a Cetesb respondeu: \u201cO Plano de Interven\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo elaborado e ainda n\u00e3o foi apresentado para avalia\u00e7\u00e3o da Cetesb. Ele contemplar\u00e1 as a\u00e7\u00f5es a serem implementadas para a remedia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. N\u00e3o h\u00e1 prazo definido para o in\u00edcio de sua execu\u00e7\u00e3o\u201d, finalizou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solvay Brasil<\/strong><br>Entramos em contato com o escrit\u00f3rio da empresa Solvay no Brasil para obter informa\u00e7\u00f5es sobre o estudo e a demora para in\u00edcio do Plano de Remedia\u00e7\u00e3o do local. A empresa confirmou que est\u00e1 conduzindo uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o assunto. No entanto, ao questionarmos sobre a demora na conclus\u00e3o do relat\u00f3rio e na implementa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, o representante da Solvay encerrou a conversa e n\u00e3o retornou nossos contatos posteriores.<br>Continuamos em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre o estudo. Procuramos a sede da empresa Solvay, na B\u00e9lgica, e questionamos sobre a demora para a conclus\u00e3o do plano e em qual etapa ele se encontra. A representante da empresa, Laetitia Van Minnenbruggen, assumiu a frente do caso e encaminhou rapidamente a solicita\u00e7\u00e3o aos representantes no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solvay responde<\/strong><br>Uma semana depois, a sede da Solvay no Brasil respondeu: \u201cA Solvay esclarece que sua participa\u00e7\u00e3o na recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea da antiga USA Chemicals, em Porto Feliz, decorre de uma solicita\u00e7\u00e3o das autoridades ambientais, devido a uma breve rela\u00e7\u00e3o comercial com a empresa h\u00e1 mais de 40 anos. Desde a solicita\u00e7\u00e3o, ocorrida em 2013, a Solvay tem conduzido estudos ambientais rigorosos, seguindo todas as normas t\u00e9cnicas e regulat\u00f3rias, bem como seus cronogramas, para subsidiar um Plano de Interven\u00e7\u00e3o que viabilizar\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Atualmente, os estudos est\u00e3o em fase final de elabora\u00e7\u00e3o e a \u00e1rea permanece segura e isolada, sob a supervis\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os competentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Provid\u00eancias<\/strong><br>\u00c9 urgente que as autoridades locais, incluindo vereadores e o prefeito, cobrem agilidade do governo estadual e da Cetesb na conclus\u00e3o do Plano de Remedia\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o merece transpar\u00eancia e a\u00e7\u00f5es efetivas para solucionar um problema que j\u00e1 dura quatro d\u00e9cadas.<br>A sa\u00fade p\u00fablica e a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente devem ser prioridades. Porto Feliz n\u00e3o pode continuar esperando por uma solu\u00e7\u00e3o que j\u00e1 deveria estar em andamento. \u00c9 dever dos representantes locais pressionar por medidas imediatas, garantindo que o legado t\u00f3xico deixado pelo vazamento de 1983 seja finalmente remediado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 13 anos, a empresa belga Solvay foi contratada pela Cetesb para criar um Plano de Remedia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea No dia 31 de mar\u00e7o de 1983, h\u00e1 42 anos, chovia forte em Porto Feliz. 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