Zé Otavio lança “Re-cordis – Minha jornada no autismo” dia 13 de novembro na Livraria Janela, em Laranjeiras
Em seu primeiro romance, autor mistura memória e ficção para revisitar a infância e a descoberta tardia do autismo
Quando era criança, Zé Otavio Motta surpreendeu uma professora de catequese ao revelar o que queria ser quando crescesse: escritor. Mas fez uma ressalva curiosa: só começaria a escrever aos 50 anos. Quase quatro décadas depois, aos 49, uma lembrança daquele episódio o levou a cumprir a promessa. O resultado é “Re-cordis – Minha jornada no autismo”, seu primeiro romance, publicado pela Francisco Alves Editora, que será lançado no dia 13 de novembro, sexta-feira, às 19h, na Livraria Janela, em Laranjeiras.
O título vem do latim e significa “voltar a passar pelo coração”, expressão citada pelo escritor Eduardo Galeano em “O livro dos abraços”. É justamente esse movimento que conduz a narrativa: revisitar lembranças, afetos, traumas e descobertas para compreender a própria trajetória. Dividido em 24 capítulos, o romance mistura memória e ficção, acompanhando dois momentos da vida do protagonista: a infância de um menino que percebe o mundo de maneira diferente e a maturidade de um homem que, décadas depois, começa a encontrar respostas para suas inquietações.
A história começa com uma infância marcada por problemas de saúde, crises e uma relação muito particular com a linguagem. Enquanto tinha dificuldades para compreender a fala das pessoas, o menino descobriu precocemente o universo das palavras escritas. As vozes lhe pareciam um zumbido de abelhas, formado principalmente por consoantes. Foi observando as imagens e os jornais que o avô lia que começou a decifrar as letras e a construir sua própria maneira de interpretar o mundo.
Entre lembranças familiares, descobertas e episódios dolorosos, a narrativa avança até a vida adulta, quando o protagonista finalmente encontra uma explicação para dificuldades que o acompanharam durante décadas. O diagnóstico tardio de autismo representa uma virada em sua trajetória, permitindo reinterpretar experiências e reconhecer características que antes pareciam contraditórias.
— Eu tinha dificuldades em coisas muito simples e facilidade com outras muito mais complexas. Não conseguia entender o que acontecia comigo. Quando veio o diagnóstico, muitas coisas do passado começaram a fazer sentido — conta o autor, que passou a compreender melhor seus limites e a respeitar seu próprio ritmo.
Embora inspirado em sua história pessoal, Zé Otavio escolheu a linguagem do romance para reconstruir suas memórias. A opção por narrar grande parte da história em terceira pessoa, criando os personagens do menino e do homem, permitiu que se aproximasse de experiências difíceis sem abrir mão da liberdade da ficção.
— Esse é um livro que também tem dores, capítulos muito duros. Criar o personagem do menininho e depois do homem me permitiu chegar mais perto dessas experiências e de mim mesmo — explica.
A busca por uma melhor qualidade de vida também atravessa a narrativa, com mudanças na alimentação, meditação e atividades físicas. Para o autor, a prática regular de exercícios teve papel fundamental em seu processo de transformação e reconstrução pessoal.
Apesar de abordar o autismo, o autor faz questão de apresentar “Re-cordis” como uma obra literária, e não como um manual ou relato de aconselhamento. Seu desejo é que cada leitor encontre na história seus próprios significados, independentemente de ter ou não alguma relação com o espectro autista.
— É como se o meu coração escrevesse diretamente para o leitor — resume.
A estreia literária acontece pela Francisco Alves, uma das editoras mais tradicionais do país, que vive uma fase de renovação de seu catálogo. Para Zé Otavio, integrar esse momento com uma obra que aborda questões contemporâneas é motivo de orgulho. A experiência também abriu caminho para novos projetos: o autor já concluiu um segundo romance e começou a escrever um terceiro.
Sobre Zé Otávio
Natural de Porto Feliz, no interior de São Paulo, Zé Otavio Motta, 50 anos, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde criou a disciplina interdisciplinar Mapas, aberta a estudantes de diferentes cursos. Com uma proposta de ensino participativa, as aulas abordam temas escolhidos pelos próprios alunos, reunindo convidados de diferentes áreas do conhecimento.
O professor também atua na divulgação científica e na produção de entrevistas e podcasts. Ao longo dos últimos anos, realizou centenas de conversas com pesquisadores, artistas, escritores e personalidades, em um acervo que reúne cerca de 500 conteúdos. Além da atividade acadêmica, ministra palestras sobre autismo, diagnóstico tardio e neurodiversidade, compartilhando experiências pessoais e informações científicas. “Re-cordis” marca sua estreia na ficção literária.


