Entre panelas, afetos e oração: a trajetória emocionante da chef Beatriz Dalalio
Há entrevistas que parecem ter sido feitas para acontecer ao redor de uma mesa. Talvez com cheiro de café recém-passado, uma xícara de cappuccino fumegando e muitas histórias atravessando o ar entre risadas e lembranças. Conversar com a chef Beatriz Dalalio é exatamente assim.
Nascida em Bauru e morando em Porto Feliz há dez anos, Beatriz carrega nos olhos a delicadeza de quem aprendeu cedo que comida nunca foi apenas comida. Filha amável, irmã carinhosa, mãe dedicada e mulher de fé profunda, ela transformou a gastronomia em profissão sem abandonar aquilo que considera essencial: servir pessoas com amor.
Sua cozinha não nasce apenas da técnica. Nasce da memória. E talvez seja por isso que, ao falar da própria trajetória, ela nunca começa pela faculdade, pelos restaurantes ou pelos pratos refinados. Beatriz começa pela casa da avó.
A relação de Beatriz com a gastronomia começou ainda na infância, muito antes do diploma e das cozinhas profissionais.
Descendente de italianos, ela cresceu correndo pela casa da avó, observando panelas fervendo e massas sendo abertas à mesa entre vozes altas, risadas e encontros familiares. “Pra mim, a cozinha sempre foi o melhor lugar da casa”, conta.
Ela lembra da água borbulhando, dos tios reunidos, da comida simples carregada de significado. O que antes era apenas a famosa “comida de vó”, hoje ela reconhece como aquilo que se tornou a essência da sua profissão: a cozinha afetiva. Uma cozinha capaz de despertar lembranças. Uma cozinha que abraça. Uma cozinha da alma.
Sensível a sabores e texturas desde menina, Beatriz sempre se percebeu apaixonada por muitas áreas ao mesmo tempo. A saúde a encantava. Os animais também. Tanto que chegou a se formar como auxiliar veterinária e ingressou na faculdade de Biologia — um sonho antigo.
Mas o destino, às vezes, trabalha silenciosamente. Foi dentro da universidade que surgiu o insight que mudaria sua vida. A instituição onde estudava oferecia também o curso de Gastronomia. Sua irmã mais velha, Aline Dalalio, já era formada na área, e Beatriz começou a observar aquele universo de perto.
As roupas, a dinâmica da cozinha, a possibilidade de um futuro profissional mais rápido e prático. “Eu pensei: por que não?” A decisão foi tomada. Ela deixaria a Biologia e seguiria a Gastronomia. O curso duraria apenas dois anos, mas mudaria toda a sua história.
Beatriz se formou em Gastronomia pela Universidade do Sagrado Coração, em Bauru. Mas ela acredita que um chef nunca é formado apenas pela universidade. Há pessoas que deixam marcas profundas.
Entre as influências que carrega até hoje estão nomes conhecidos como Jamie Oliver, Alex Atala e Felipe Bronze. Mas, acima de todos, existe um nome que ela menciona com carinho especial: a irmã Aline Dalalio.
Hoje vivendo no Canadá há três anos, Aline continua sendo referência, troca receitas, envia fotos e permanece como uma presença constante na vida profissional da irmã. Foi com ela que Beatriz aprendeu algo que ultrapassa a cozinha: resiliência. “É um meio onde ninguém perdoa. O serviço precisa ser feito.”
Mas houve também outro mestre inesquecível. O professor Ulisses. Um homem rígido, disciplinador e inesquecível. Na sala dele, não existia improviso. Os alunos entravam em fila indiana. Ele observava unhas, uniforme, maquiagem, brincos e postura. Qualquer detalhe fora do padrão significava aula perdida. Parecia, segundo ela, uma escola militar.
Mas Ulisses ensinou algo muito maior que técnicas culinárias. Ensinou postura. Disciplina. Caráter. “Ele nos ensinou que as pessoas se vendem por muito pouco. E nos ensinou a não fazer isso.”
Quando soube da morte dele, há dois anos, Beatriz sentiu a dor de quem perde alguém que ajudou a construir parte da própria identidade. A saudade ficou. E junto dela, os ensinamentos.
Ainda durante a faculdade, Beatriz começou a viver experiências decisivas.
Fez estágio numa osteria comandada por um chef italiano em Bauru e ali aprendeu detalhes pouco conhecidos sobre armazenamento e congelamento de alimentos — os chamados “segredos de cozinha.
”Depois trabalhou com uma professora chef especializada em eventos. Era a época do finger food. Todo final de semana significava um lugar novo, um público diferente, uma nova montagem e uma nova oportunidade de aprender. Ela gostava daquele movimento. Do contato com as pessoas. Do servir.
Hoje, olhando para trás, percebe que talvez ali tenha descoberto por que nunca se apaixonou pelo modelo tradicional dos restaurantes. Mas foi acompanhando a abertura de um restaurante que viveu uma das experiências mais transformadoras.
Entre muitos alunos, foi escolhida para acompanhar absolutamente tudo: criação de cardápio, escolha de louças, organização financeira e funcionamento do espaço. O chef responsável confiou nela. Confiou de verdade. Foi um aprendizado intenso e precioso. Também foi doloroso quando ele morreu durante a pandemia. “Foi uma perda irreparável.”
Mas o legado ficou. E a confiança depositada nela passou a funcionar como combustível.
Enquanto muitos chefs sonham com restaurantes próprios, Beatriz seguiu por outro caminho. Ela descobriu cedo que preferia cozinhar para pessoas — não para mesas anônimas. Gosta de olhar nos olhos. Conversar. Conhecer histórias. Entender hábitos.
Por isso nunca desejou permanecer em restaurantes convencionais. Depois de algumas experiências curtas, entrou na Fazenda Boa Vista. E nunca mais saiu.
Há dez anos Beatriz trabalha no complexo da Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz. Mas quem imagina glamour constante se engana. Ela explica que gastronomia em empreendimentos de luxo raramente significa pratos extravagantes o tempo todo. Na maioria das vezes, o que os clientes desejam é algo muito diferente do imaginário popular.
Eles querem simplicidade. Mas uma simplicidade impecável. “Muitas famílias passam a semana inteira em restaurantes sofisticados e, quando chegam em casa, querem comida simples.”
O segredo está no detalhe. Na apresentação. Na mesa bem-posta. No cuidado. Um estrogonofe pode emocionar tanto quanto um prato francês sofisticado.
E é justamente aí que mora sua assinatura. Beatriz se define como uma chef da cozinha afetiva. Ela sabe executar gastronomia refinada. Pesquisa. Aprende. Estuda. Mas seu coração pertence às receitas que despertam lembranças. Aos sabores de infância. À comida que conversa com a memória.
Os episódios que marcaram sua carreira raramente envolvem fama ou luxo. Envolvem gente. Como o senhor que sempre pede bolo simples de fubá porque lembra a avó. Ou a mulher do Sul que entrou emocionada na cozinha depois de provar uma salada de batatas preparada por ela. A convidada estava com lágrimas nos olhos. “Essa salada me lembrou a comida da minha avó.” Beatriz ainda se arrepia ao recordar.
Porque para ela esse é o verdadeiro reconhecimento. Quando o alimento atravessa o paladar e alcança o coração. “Muitas vezes volto pra cozinha e agradeço a Deus. Digo: Senhor, esse elogio é Seu, porque foi o Senhor quem me deu esse dom.”
A fé, aliás, aparece naturalmente em tudo o que faz. Não como discurso. Mas como presença.
Em 2024, Beatriz viveu uma experiência internacional. Passou quatro meses na Irlanda fazendo intercâmbio e trabalhando em um restaurante brasileiro chamado Sabor Braziil. Ali conheceu outra dimensão da gastronomia. Conviveu com pessoas que haviam deixado seus países fugindo de guerras, crises e dificuldades. Experimentou sabores diferentes. Observou pequenos empreendedores cozinhando pratos tradicionais de suas culturas.
Ela aprendeu sobre culinária. Mas aprendeu principalmente sobre humanidade.
Entre os profissionais que marcaram essa fase estava o chef Eron. Um brasileiro que trabalhava ao seu lado e se tornou apoio emocional e profissional. “Não desiste”, ele dizia. “Você vai conseguir.”
Ela precisou voltar ao Brasil por motivos pessoais. Mas voltou diferente. Mais forte. Mais madura. Mais consciente do valor das conexões.
Ao ser questionada sobre o momento mais importante da carreira, Beatriz surpreende. Não cita viagens. Nem clientes famosos. Nem pratos inesquecíveis. Ela escolhe uma cena simples. Uma reunião escolar.
Seu filho Benício, hoje com dez anos, cresceu acompanhando a rotina da mãe chef — finais de semana longe, horários difíceis e longas jornadas. Durante anos, Beatriz carregou culpa. Culpa por não estar presente em muitos momentos. Até que, numa reunião, ouviu algo da professora. “Seu filho falou de você.” Ela perguntou o quê. E ouviu: “Minha mãe é a melhor chef de cozinha que existe.” Beatriz chorou. Ali, toda a culpa perdeu força. A profissão que tantas vezes a afastou dele também havia despertado orgulho. E aquilo a marcou para sempre.
Há uma romantização perigosa da cozinha profissional. Beatriz fala disso sem maquiagem. Sem glamour. Sem filtros. Cozinha profissional dói. Dói nas pernas. Na coluna. Nas mãos queimadas. Nos dedos castigados pelo choque entre freezer e panelas quentes.
Às vezes não há tempo nem para comer. Ela já trabalhou 27 horas praticamente sem parar numa festa de aniversário. Desenvolveu ansiedade. Síndrome do pânico. Precisou pedir demissão. Ela também fala de um tema pouco debatido: o sofrimento psicológico e o uso de drogas em ambientes extremamente exigentes, como restaurantes e navios. Conheceu histórias. Ouviu relatos. Viu realidades duras. “É um assunto que ainda quero escrever sobre.”
E talvez essa honestidade seja uma das características mais marcantes da chef. Ela ama a profissão. Mas não a romantiza.
Beatriz não se vê como vítima de barreiras de gênero na gastronomia. Pelo contrário. Acredita que muitas áreas valorizam a presença feminina pela delicadeza, organização e sensibilidade. Mas fala com firmeza sobre respeito.
Recusou propostas financeiramente vantajosas quando percebeu que havia interesses que ultrapassavam o profissional. “Eu não me vendo.”
Também alerta sobre abusos emocionais e físicos que mulheres podem enfrentar em ambientes majoritariamente masculinos. Para ela, competência e postura precisam caminhar juntas.
Ao contrário do que muitos imaginam, Beatriz nunca sonhou em abrir restaurante. Viu de perto o peso dessa realidade. A burocracia. A pressão. O desgaste. Seu sonho é outro. Ela quer ensinar. Treinar equipes. Criar uma escola voltada para profissionais que trabalham em casas e condomínios como a Boa Vista. Ensinar técnica. Postura. Comportamento. Defesa contra abusos. Humanização.
E existe outro sonho, guardado com ternura. Um café. Não apenas um café comercial. Mas um lugar-refúgio. Com cheiro bom. Doces. Café de qualidade sem exageros. Um ambiente acolhedor. “Eu consigo até sentir o cheiro do meu café.”
Beatriz acredita profundamente no poder transformador da gastronomia. Já viu funcionárias da limpeza se apaixonarem pela cozinha enquanto aprendiam com ela.
Anos depois, recebeu mensagens emocionadas. “Fiz Gastronomia por sua causa.”
Hoje, muitas delas se tornaram chefs. Ganham melhor. Mudaram de vida. Isso a emociona.
Por isso sonha com projetos sociais voltados principalmente para mães. Mulheres que possam aprender a cozinhar, empreender e permanecer próximas dos filhos. Para ela, cozinhar é também ferramenta de dignidade.
Depois de viver dez anos em Porto Feliz, Beatriz aprendeu algo que leva consigo: gastronomia também é identidade. Quando chegou à cidade, ouviu um conselho repetido por todos: “Você precisa experimentar o feijão à cearense.”
Ela entendeu rapidamente. Todo lugar possui sabores que contam sua história. Do barreado no Paraná ao acarajé na Bahia. Da cozinha mediterrânea evocada pelo Zaatar aos pratos que carregam sotaques inteiros. “É impossível separar gastronomia e cultura.”
Ao final da conversa, Beatriz deixa de ser apenas chef. Fala como mulher. Como mãe. Como alguém que aprendeu, às vezes pela dor, que trabalho não pode ocupar tudo.
Ela conta que naquele mesmo dia saiu para caminhar e correr para aliviar a mente. E dali tirou uma conclusão simples: “Sem saúde e sem cabeça tranquila, não existe trabalho bem-feito.”
Por isso defende equilíbrio. Tempo com os filhos. Com amigos. Com a família. Momentos de lazer. Porque, segundo ela, corpo, alma e espírito precisam caminhar alinhados. Do contrário, algo cede no caminho.
Talvez seja essa consciência que explique a serenidade com que fala da vida. Ou a maneira como devolve a Deus os elogios recebidos. Ou ainda o modo como entende a própria história.
Quando perguntada sobre qual frase resumiria sua trajetória, ela não hesita. A resposta vem imediata. Como oração. Como testemunho. Como síntese de tudo o que viveu. “Ebenezer: até aqui ajudou-me o Senhor.”
E talvez não exista definição melhor para Beatriz Dalalio. Uma chef que cozinha com técnica. Serve com afeto. Trabalha com coragem. E segue caminhando entre panelas e sonhos, acreditando que a fé também pode temperar destinos.


